Lentamente nos sentimos mais perto do que estamos esperando; sabemos que certamente algo acontecerá. A cada página lida sentimos um caos que, num dado momento, explodirá em um clímax intenso. A atmosfera aos poucos passa a se fechar em volta de nós, até então nos dominar por completo. Pobre em descrições, o estilo obscuro e perturbador do autor nos força a sermos analistas e a interpretarmos o que lemos, eu acredito, para nos inserir mais efetivamente em sua trama.
Pobre, porém muito orgulhoso e inteligente, Ródion
Romanovitch Raskólnikov, um jovem ex-estudante
de direito dono de uma mente em confusão e doentia, planeja um assassinato contra
uma velha usurária ao se encontrar numa situação desprezível: ainda morando em
um cubículo sujo, devia dinheiro a certa locatária. Mas esta não era a
principal razão para o assassínio, ele se
via no direito de matá-la. Essa atitude lhe causa um intenso conflito em
sua mente que o atinge da primeira até a ultima página.
Poderia escrever uma resenha, o livro é de uma
complexidade interessante, mas por ora somente falarei dele abordando-lhe só
uma superfície, portanto o que está lendo será curto. Depois postarei uma
resenha, uma matéria que mergulhe mais profundamente em Dostoiévski, meu
escritor favorito e atualmente minha principal influencia.
Raskólnikov possuía um comportamento melancólico e mórbido.
Certas vezes sofria delírios, outras vezes saia de casa para caminhar pela cidade
como um ébrio... Não bebia muito, mas havia momentos em que entrava em tavernas
se permitindo estar entre pessoas. Não socializava muito – passara um mês
inteiro em isolamento – mas algumas vezes não suportava ficar em sua casa,
sobretudo pelo fato daquela ideia
tanto o perturbar quando ele se encontrava lá. Achava que sair um pouco lhe
faria esquecer um pouco as coisas que o inquietava e, quando se via em meio
àquele povo humilhado, se identificava com eles e se sentia melhor. Sentia que,
quando ficava sozinho, uma sombra perigosa se aproximava. Saia porque também
queria esquecer a locatária e se queixava de que sua “casa” intensificava sua
melancolia.
De quase 600
páginas, ao menos a tradução em português que li, Crime e Castigo é um livro
que o caracterizo como genial e não é à toa que
seja considerado uma das maiores obras da literatura – para alguns a maior – e que,
por exemplo, influenciou todo o século XX, como Freud e Kafka. Fora publicado
em 1866. É um romance realista e de alto teor psicológico, principais características
de Dostoiévski em seus escritos, e claro, não é a única obra genial do autor.
Em sua vida, começando por Pobre Gente em 1846 quando tinha 25 anos, foi escrevendo as maiores obras da
literatura.
Levantou-se tarde no dia seguinte, após um sono
agitado que não lhe reparara as forças. Despertando, sentiu que estava de mau
humor e lançou em volta de si um olhar
de tédio, irritado. Esse cubículo de seis passos de comprimento tinha o aspecto
mais miserável que se pode imaginar, com os estofos amarelados, deteriorados e
imundos de poeira. O teto era tão baixo, que um homem de estatura alta não
estaria à vontade naquela toca, com o permanente receio de bater nele com a
cabeça. A mobília estava em harmonia com o recinto: três velhas cadeiras com
falta de pés, a um canto uma mesa de pinho, na qual se amontoavam livros e
cadernos cobertos de densa camada de pó, evidente prova de que havia muito
deque não tocavam neles; finalmente, um grande e desmantelado divã, cujo estofo
se desfazia.
Este móvel, que ocupava quase metade do quarto,
era a cama de Raskólnikov, que nele dormia quase sempre vestido e sem lençóis,
cobrindo-se com a sua velha capa de estudante e encostando a sua cabeça numa
pequena almofada chata sob a qual metia toda a sua roupa, limpa e suja. Em
frente ao sofá havia uma pequena mesa.
A misantropia de Raskólnikov adaptava-se
magnificamente a toda aquela porcaria. Tomara tal aversão a qualquer ser
humano, que à vista da própria criada que arranjava o quarto se exasperava.
Isso é frequente em certos monomaníacos, preocupados com uma ideia fixa.
Havia quinze dias que a hospedeira suspendera o
fornecimento de comida, mas Raskólnikov não pensara ainda em ir entender-se com
ela.
Quanto a Nastácia, cozinheira e única criada da
casa, não se aborrecia ao ver o inquilino nessas disposições, por que isso
importava em uma diminuição do seu trabalho: deixara completamente de arrumar e
limpar o quarto de Raskólnikov, vindo apenas uma vez por semana dar uma
vassourada. Neste momento entrou para despertá-lo.
– Levanta-te! Como podes dormir
até estas horas? Já são nove. Trago-te chá, queres uma xícara? Sempre estás com
uma cara!...
Raskólnikov abriu os olhos,
espreguiçou-se e reconheceu Nastácia.
– É a patroa que manda o chá?,
perguntou enquanto se sentava.
A criada colocou diante dele o
bule onde havia ainda um resto de chá, e pôs ao lado dois torrões de açúcar.
– Toma, Nastácia, disse ele,
procurando no bolso e tirando uma moeda (mais uma vez se deitara vestido),
peço-te que me vás comprar uma pãozinho e traze-me do salsicheiro um pedaço de
chouriço, do mais barato.
– Num minuto estou de volta com
o pão; mas em vez de chouriço, não queres antes um chtchi*? É de ontem e está uma beleza. Já ontem à noite te guardei
um pedaço mas tu entraste tão tarde! Está uma delicia.
Foi buscar o chtchi. Raskólnikov pôs-se a comer e ela
sentou-se no sofá ao seu lado, tagarelando, como camponesa que era.
– Praskóvia Pávlovna vai
queixar-se de ti à polícia.
A fisionomia do rapaz
alterou-se.
– À polícia? Por quê?
– Porque não lhe pagas e não
queres sair. Ora aí tens o porquê.
– Essa só pelo diabo! Não me
faltava mais nada!, rosnou por entre dentres, muito fora de propósito vem isso
agora para mim... E tola, acrescentou em voz alta. Vou logo falar-lhe.
– Tola? É tão tola como eu. Mas
tu, que és esperto, para que passas o dia deitado, como um vagabundo? Por que é
que ninguém vê o teu dinheiro? Dantes parece que dava lições, por que é que não
fazes nada, agora?
– Sempre faço alguma coisa...
respondeu Raskólnikov bruscamente e contrariado.
– Que fazes tu?
– Trabalho.
– Mas que trabalho?
– Penso!, respondeu ele
asperamente, depois de breve silêncio.
*Típica sopa russa de repolho.
Trecho de Crime e Castigo, páginas 34-36, tradução de
Luiz Cláudio de Castro, editora Ediouro.

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