segunda-feira, 6 de maio de 2013

Niandra Lades: Algo com a mesma vibração de Da Vinci.

Por Erick Johnson.

John Frusciante não é nem de longe o melhor cantor de todos. O melhor guitarrista - talvez -, porém quem conhece seu trabalho como guitarrista, e suas interpretações de clássicos como "How Deep Is Your Love", "For Emily Whenever I May Find Her", "Tiny Dancer", sabe que é indiscutível a emoção que exala de tudo o que ele toca e canta. Frusciante consagrou-se como guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, no qual gravou cinco álbuns de estúdio, sendo Stadium Arcadium (2006) o seu último disco como um Pepper. Em 2009 saiu pela segunda vez do RHCP para dedicar-se integralmente a sua carreira solo.

Havia saído pela primeira vez em 1992, durante a turnê do icônico álbum Blood Sugar Sex Magik pelo Japão. Durante o voo para o show, John anuncia que está saindo da banda, para surpresa de seus companheiros. Todos perguntaram o que iria dizer para as pessoas quando soubessem que havia saído da banda, e sua resposta foi simples: “Diga a todos que eu enlouqueci”. Acontece que John estava triste, a fama mundial de BSSM trouxe consigo um desestimulante. Via-se ali se tornando algo que não queria: “Mais um Rock star como qualquer outro”, como disse para a rede de TV holandesa VPRO, em 1994, em sua primeira entrevista desde a saída da banda em meados de 92. Ali se descobre um John totalmente diferente de dois anos atrás, decorrente das drogas que vinha consumindo em grandes quantidades. O repórter responsável pela entrevista, Bram van Splutern, ao ver o estado do agora mazelado John Frusciante, disse:

"Eu tinha ouvido algumas histórias sobre as drogas, mas não sabia então que ele tinha entrado neste grave estado de uso em heroína, então quando ele abriu a porta para nós, eu fiquei chocado ao ver a condição que ele estava lá dentro. Passamos provavelmente algo como duas horas em sua casa, sua namorada também estava lá e filmamos o tanto quanto poderíamos. Durante um dos intervalos, John entrou em outra sala e usou mais um pouco de heroína. Eu pensei que era um pouco chocante. Mas por outro lado, às vezes eu pensava que ele estava muito lúcido e tinha coisas interessantes a dizer sobre os Chili Peppers, sobre a vida, sobre si mesmo e sobre sua música. Quando sai de sua casa duas horas depois estávamos em estado de choque sobre a forma como John estava lá dentro, sobre o sangue que estava em sua camisa, os seus dentes que eram muito ruins, as cicatrizes em seu braço... Foi uma experiência muito emocional encontrá-lo naquele estado."

A entrevista coincidiu com em que John estava lançando seu primeiro CD, Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt, álbum criado que fora criado porque, para John, não havia músicas de qualidade sendo produzidas na época:

 (Podemos observar um pouco do estado de John na época)

Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt fora feito para sentir (como tudo o que faz), fechar os olhos e se concentrar totalmente nos sentimentos que são característicos de seus álbuns. Caracterizo-o como um álbum complexo, confuso, com solos nervosos, e outrora calmos com distorções ao fundo, e gritos alucinantes, mostrando uma faceta de seus sentimentos da época em que o compôs. O disco fora gravado na sala da antiga casa de John, (queimada devido a um mix de drogas). Se trata de uma produção "Lo-fi”(produções com baixa qualidade), contendo violão, banjo, guitarra e piano, todos tocados por John. Se você espera algo com produções ótimas - ou perto disso -, bom, temo que você não goste. Porém, se espera algo expressivo, você irá adorar. 

Inicialmente, a ideia consistia em lançar dois álbuns, Niandra Lades e Usually Just a T-Shirt. Não obstante, John acreditava na sua morte devido às drogas logo, logo, então optou por lançar ambos em conjunto. O encarte do álbum contém John num personagem com visual andrógino, com a cabeça adornada por um chapéu florido, por cima de cabelos amarrados, lembrando mulheres do século 50. Lábios escurecidos, casaco e cachecol completam o look. Interpreto essa escolha como uma alusão a sua visão de Rock n’ Roll na adolescência, onde tem a bissexualidade/androgenia como algo ligado ao Rock n’ Roll. Ainda na capa podemos ver uma dedicatória: “To Clara”. Trata-se de Clara Balzary, filha de Flea (seu grande amigo), a qual denominou como “A pessoa mais legal”.


O disco é composto por 25 músicas dispostas em 1 hora e 10 minutos. Como mencionei acima, a ideia inicial residia em lançar dois álbuns em um único. E assim fez-se: A primeira metade contém o Niandra Lades (concebido durante as gravações de BSSM) composto por 12 músicas, com destaque para as faixas “As Can Be”, “My Smile Is A Rifle”, “Skin Blues”, “Your Pussy’s Glued To A Building On Fire”, “Blood On My Neck From Success” e “Ten To Butter Blood Voodoo”. Já a segunda metade, composta por Usually Just a T-Shirt, possui 13 faixas que não possuem nomes, sendo chamadas de “Untitled”, e se diferenciam por sua ordem de entrada.

A primeira parte do álbum, composto pelas músicas do Niandra Lades, tem inicio com John falando "One, Two, Three, Four", numa voz grave e lenta, seguida da música "As Can Be", com um instrumental lento: com violão, banjo, e a guitarra com o feeling característico de Frusciante. O instrumental segue até 1 minuto e 45 segundos, ponto em que John começa a cantar, onde podemos perceber o estilo "lo-fi" em sua voz. A letra traz um teor de despedida, acentuando-se no fim quando quase narrando John canta: "E eu te amo, e sempre tive que agradecer a Deus por ter te encontrado. Lindas conversas, bem, isto era assim pra mim”. Podemos ver um pouco de seu desprendimento da vida quando canta  “Você vê? Não existo mais. Eu sou feliz do jeito que posso ser".   

"My Smile Is a Rifle" dar continuidade trazendo um começo também lento com apenas guitarra, sempre com o Feeling magnífico. Quando John começa a cantar, temos que fechar os olhos e sentir. Embarcar numa viagem não é opcional. Sua voz, grave e lenta no começo, transmuta-se constantemente ao longo de 3 minutos e 50 segundos, de grave a palavras gritadas, numa voz aguda e ANASALADA. Para mim, uma das mais expressivas da primeira parte de Niandra.  A próxima, Head (Beach Arab), escrita aos 16 anos, apresenta-se uma letra curta e confusa. Conta com a presença do banjo tocado incessantemente ao fundo, o violão dando um ar psicodélico, e no fim um pequeno solo fechando a faixa com chave de ouro.
  
Chega à vez de "Big Takeover", cover da banda de hardcore americana Bad Brains, na qual a letra apresenta críticas às ações humanas. Jonh faz uma versão com violão e banjo intenso que nos lembra de músicas árabes, mostrando uma vertente diferente do resto do álbum. A quinta faixa se chama "Curtains", única tocada no piano, que começa lenta e vai progressivamente aumentando de ritmo, até se tornar a música mais agitada da primeira metade do álbum. “Running Away Into You”, única música da primeira parte do álbum escrita e gravada após sua saída da banda, é a sexta faixa, marcada pela presença de efeitos, "noises" alucinantes, mostrando as garras experimentais de Niandra Lades and Usually Just a T- Shirt. 

“Mascara”, é a próxima, tocada apenas com violão. John canta simultaneamente partes diferentes, ora serenamente, ora intensamente. Uma de minhas preferidas. “Been Insane”, tocada apenas com o violão, traz na letra confissões e lamentações: “Eu tenho sido insano, bem, o tempo é lento”/ “Quando você está em volta, sou a ferida em volta do seu polegar”, talvez endereçadas a Toni Oswald, sua namorada e a pessoa mais próxima na época. Been Insane dar lugar a “Skin Blues”, única faixa instrumental da primeira parte do álbum e minha música preferida de “Niandra Lades”. Com o feeling magnífico do violão e da guitarra, a faixa se inicia com John tocando violão em um ritmo rápido, que aos poucos diminui no momento em que a guitarra entra, e nos leva a uma viagem em outra dimensão. Em meio a versos que parecem desconexos, John canta: “O sorriso no meu rosto não é sempre real”. Apresento-lhes “Your Pussy’s Glued To A Building On Fire”, faixa composta durante o BSSM que reflete boa parte da vida de John durante esta fase, onde aparentava estar feliz, quando o contrário se fazia presente, principalmente no documentário “Funky Monks” (sobre as gravações de BSSM) no qual suas aparições eram sempre descontraídas, parecendo estar bastante feliz - um dos motivos pelo qual sua saída ter causado surpresa geral. Nesse ponto, já estamos quase no fim de um álbum que mistura efeitos, elementos de outras culturas, gritos alucinantes e um feeling que só John Frusciante é capaz de ter. O álbum termina com "Blood On My Neck From Success" (Sague no meu pescoço do sucesso, numa tradução livre), e "Ten To Butter Blood Voodoo", letras que sintetizam a inspiração do álbum. Destaque para a última, na qual ouvimos sua voz duplamente, como em "Mascara", porém, nesse caso servindo como Back Vocal. Dessa forma Niandra Lades chega a seu fim após um curto, porém,  alucinante solo, "tocado com o dedo do meio".


Este foi o meu primeiro post, espero que tenham gostado. Aos que não conhecem o trabalho solo de John, espero que este tenham sido um bom começo. Sugestões e correções são muito bem vindas. Comentem! 

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